21 de abril de 2016

Mortalidade por secura estival

Toiças a rebentar após corte outonal (Salvaterra de Magos, fev-2016)
O ano 2015 foi marcado por uma pluviosidade extremamente baixa. Em grande parte do território continental, a quantidade de chuva foi 50% inferior ao valor médio das últimas décadas. A este facto acrescenta-se o período invulgarmente longo da secura estival, que agravou o efeito da baixa pluviosidade.

Nestas circunstâncias, algumas plantações de eucalipto são afetadas pela falta de água no solo e mostram sinais de secura na parte aérea da árvore, nomeadamente na folhada. Esta secura pode assumir proporções por vezes maciças, com a perda da maioria das árvores na plantação.

Este efeito verifica-se quase exclusivamente em povoamentos em primeira rotação e sobretudo com idades entre 2 e 6 anos. A secura de árvores em talhadia assume um caráter mais isolado, e raramente atinge povoamentos por inteiro. O sistema radicular das árvores jovens em primeira rotação ainda está limitado às camadas superficiais do solo, e quando esta camada perde a totalidade da humidade, a árvore não consegue compensar a transpiração com a absorção de água do solo. Em situações de maior duração, a folha perde a capacidade de fechar as suas estomas, a água presente nos tecidos foliares perde-se para a atmosfera, originando a secura e morte do tecido, e a cor da folha muda de verde para amarela.

Uma vez que a duração deste processo é crítico, o fenómeno dos povoamentos a "secar de pé" nota-se mais no final de verão até às primeiras chuvas.

Quando um gestor florestal é confrontado com este fenómeno, coloca-se a questão de como agir. É sabido que a secura da copa não significa imediatamente a morte da árvore, porque os tecidos mais resistentes nos ramos, tronco e, sobretudo, sistema radicular podem manter-se vivos ainda durante bastante tempo. Também a secura das folhas reduz drasticamente a perde de humidade por transpiração, por paragem total dos processos de fotossínteses e crescimento.

Quando estamos perante a secura maciça num povoamento, o primeiro objetivo de intervenção é de salvar a futura produção, uma vez que o atual povoamento já não tem condições de continuar a produzir. Sabendo que, estando a copa seca, o sistema radical em muitos casos ainda está viva, a opção é de avançar com o corte raso. Porém há dúvidas sobre qual o melhor momento para o fazer.

Para tal, no ano passado efetuámos algumas experiências de campo para analisar o efeito do corte na sobrevivência das toiças. Numa propriedade na região de Beira Interior, foi selecionada uma área com um número elevado de árvores secas. Prévio ao seu corte, todas as 223 árvores foram marcadas na sua base com fita plástica com cores diferentes, com base no seu estado vegetativo: fita verde para árvores com a copa verde (n=100; 45%), fita amarela para árvores que estão a secar (n=75; 34%) e fita vermelha para árvores já totalmente secas (n=48; 22%). De seguida, todas as árvores foram cortadas pela base. Este corte aconteceu na segunda quinzena de agosto. Objetivo era avaliar posteriormente a correlação entre o surgimento de rebentação na toiça e o estado vegetativo da árvore no momento de corte.



 
Exemplos de toiças "vermelha", "amarela" e "verde"

Esta avaliação for feita no final de dezembro, com os seguintes resultados:
Verdes: 75% das árvores rebentou após corte; 25% não rebentou.
Amarelas: 33% das árvores rebentou após corte; 67% não rebentou.
Vermelhas: 0% das árvores rebentou após corte; 100% não rebentou.

Esta experiência leva a concluir que não vale a pena cortar as árvores a secar, porque a quase totalidade das toiças de árvores secas ou a secar acabaram por não rebentar, ao qual se acrescenta que mesmo 25% das árvores verdes não rebentaram.

No entanto, há aqui um detalhe que é relevante: o momento em que o corte é realizado. No caso da experiência, o corte foi feito ainda em plena verão, um mês antes das primeiras chuvas. Será que este facto foi determinante na taxa de mortalidade após corte ou não?

Para responder a esta questão podemos olhar para outras áreas com elevada mortalidade que foram cortadas já no outono, após o início das chuvas. Com taxas de secura prévio ao corte superiores às do ensaio mencionado, verificaram-se taxas de sobrevivência das toiças após corte entre os 80% e 90% passados 6 meses após corte em povoamentos com idades semelhantes. Estas áreas situam-se no Ribatejo (concelhos de Vila Nova de Barquinha e Salvaterra de Magos).
Estes últimos resultados contrariam claramente a primeira conclusão. Embora especulativo, será que a secura que se verificou após corte no ensaio inviabilizou a rebentação das toiças, levando à sua morte? É plausível. Também pode haver uma relação com as características edafo-climáticas da região (Beira Interior vs Ribatejo).

E o que acontece quando deixamos as árvores em pé? Esta situação verificou-se numa outra plantação, na zona de Benavente. Esta plantação tem como característica distintiva que tinha somente 2,5 anos de idade quando secou, e não de 4 a 6 como os outros povoamentos. Foi motivo para não avançar com o corte logo no outono, aguardando uma eventual reação das árvores.
Povoamento 2,5 anos atingido pela secura (Benavente, fev-2016)
Passado mais do que meio ano, verificou-se que maioria das árvores secas acabaram por morrer por inteiro, tendo uma minoria rebentado ao longo do tronco. As árvores mortas vão ter de ser substituídas, enquanto as que rebentaram ao longo do tronco vão ser cortadas. Esta operação originará um povoamento irregular, com árvores sãs da primeira plantação, árvores cortadas a rebentar pela toiça e árvores replantadas com 3 anos de diferença com a plantação original.

Pelas diferentes experiências obtidas em consequência da secura extrema do ano passado, parece adequado proceder a cortes rasos no outono de áreas onde o número de árvores secas é elevado, permitindo o reinício de um novo ciclo de crescimento. Recomenda-se efetuar os cortes quando o solo já tiver alguma humidade das chuvas outonais.