22 de outubro de 2013

Alhos com bugalhos

Reflorestação de eucalipto no Ribatejo: habitat preferencial de chasco-ruivo
O número de estudos científicos Ibéricos sobre a ecologia de plantações de eucalipto é notoriamente baixo. A razão desta escassez parece ser mais sentimental que científico: não são muitos os biólogos que escolham um habitat considerado pobre em biodiversidade como objeto de estudo. Não há mal nisso, mas impede um apuramento mais objetivo e isento dessa biodiversidade.

No entanto, de vez em quando surgem publicações, como é o caso desta na revista de renome Forest Ecology and Management, na edição de outubro: Effectiveness of eucalypt plantations as a surrogate habitat for birds. No artigo são comparados vários habitats florestais galegos, com o objetivo de avaliar sua importância para a diversidade avifaunísticas na perspetiva de uma paisagem fragmentada, onde estes habitats se alternam.

Até aqui nada de anormal. As plantações de eucalipto têm de facto diversidades avifaunísticas relativamente baixas quando comparado com habitats naturais; já não será assim com outros habitats com plantações de espécies de produção lenhosa. Falo por experiência própria em estudos como Atlas das Aves Nidificantes, Censo das Aves Comuns e outros em que realizei trabalho de campo, opinião que qualquer observador de aves pode confirmar.

Porém, o que me surpreendeu no artigo foi a escolha dos habitats: plantações de eucalipto (três classes de idade: jovem, idade de corte e envelhecido), carvalhal adulto, pinhal adulto e matos. Se o objetivo é comparar a importância da espécie arbórea na diversidade avifaunística de habitats florestais, porquê introduzir uma variação na comparação, que é a idade, logo a estrutura dos dois habitats considerados naturais? Porquê comparar plantações de eucalipto (ecologicamente sempre jovens) como povoamentos sobremaduros de pinheiro bravo e adultos de carvalho? Porquê não comparar plantações de eucalipto com plantações de pinheiro e carvalho com a mesma estrutura e/ou desenvolvimento?

Como era de esperar, a conclusão do estudo foi que os eucaliptais estudados têm muito menos diversidade avifaunística que pinhais e carvalhais adultos. Mas então, como podemos concluir que essas diferenças são consequência da espécie e não da estrutura da vegetação? Qual seria a conclusão quando se tivesse comparado uma plantação de um eucaliptal com uma plantação de pinheiro ou mesmo um carvalhal com uma estrutura semelhante?

No meu entender, o estudo devia ter comparado habitats de espécies diferentes mas com estruturas semelhantes, uma vez que a estrutura tem uma importância primordial para a biodiversidade em geral, incluindo a diversidade avifaunística. Comparar um carvalhal adulto ou pinhal sobre-maduro (idade > 60 anos) com uma plantação de eucalipto de 10 ou 20 anos é comparar alhos com bugalhos.

No entanto, o que interessa sobretudo na ecologia das plantações de eucalipto, não é o que as plantações não têm, mas sim o que têm. Do pouco que se sabe sobre a ecologia dos eucaliptais (por ser muito mal estudada), eles constituem habitats de nidificação para várias espécies de aves classificadas como ameaçadas, como por exemplo aves de rapina como águia-real, águia de Bonelli, açor, águia-calçada, mas também as duas espécies de noitibó, chasco-ruivo, alcaravão etc.

O que interessa estudar é a importância da dinâmica dos eucaliptais, com a sua elevada frequência de cortes, oferecendo às diferentes espécies diferentes estados de desenvolvimento do habitat. Uma espécie que depende de um certo estado de desenvolvimento, encontrará sempre algures esse estado num espaço geográfico relativamente reduzido. Por exemplo, essa dinâmica cria uma elevada extensão de ecótonos, nomeadamente em áreas de minifúndio, zonas de elevada importância para muitas espécies.

O que interessa também conhecer é qual o papel das plantações de eucalipto para espécies ameaçadas:
  • chasco-ruivo (Oenanthe hispanica) nidifica regularmente em plantações recentes (até 2 anos de idade) de eucalipto (ver foto acima). Em regiões onde as reflorestações de eucalipto são abundantes, este habitat está permanentemente disponível, embora em parcelas temporalmente distribuídas. Esta dinâmica e sua importância para a espécie em causa nunca foi estudada (que eu saiba).
  • As duas espécies de noitibó (noitibó de Europa Caprimulgus europaeus e noitibó-de-nuca-vermelha Caprimulgus ruficollis), nidificam no solo em formações florestais. A sua utilização de plantações de eucalipto é conhecida, e para tal recorrem sobretudo a eucaliptais com solo nu ou vegetação esparsa, resultado dos tratamentos silvícolas de controlo de matos, evitando subbosque densos e altos.
  • Em áreas altamente humanizadas, a ave-de-rapina açor (Accipiter gentilis), espécie florestal por excelência, recorre frequentemente a eucaliptais de produção para nidificar,como já foi relatado neste e neste post). E este ano, até um casal de águia-real (Aquila chryseatus) ocupou uma plataforma colocada num eucaliptal no Parque Natural do Tejo Internacional, como se pode ler aqui.

O estudo parece querer concluir o óbvio: "The poor avifauna in eucalypt plantations suggests their limited value as a habitat for birds of either native forests or shrublands, in contrast to pine plantations, which showed their potential to favor connectivity among native forest patches.", no entanto não comparou formações comparáveis, invalidando essas mesmas conclusões. Também não foi capaz de identificar espécies ameaçadas relativamente abundantes na Galiza que utilizam eucaliptais para nidificar (açor, noitibó de Europa), negando aos eucaliptais um valor relevante em termos de avifauna.
Outra conclusão, "A more intensive management with understory removal, a common practice in plantations controlled by the forestry industry, would negatively affect bird diversity in eucalypt plantations.)" parece ignorar a especificidade ecológica de algumas espécies florestais. A manutenção de um subbosque denso e alto beneficiaria sobretudo espécies generalistas, em detrimento das espécies referidas acima.

Por vezes, não é importante o número de espécies que ocorrem num habitat, mas sim qual é a importância desse habitat para espécies ameaçadas ou relevantes em termos da biodiversidade.

4 comentários:

  1. As the author of the paper referred to in this blog post, I am sending this comment to answer to the criticisms expressed in it, explaining the reasons behind the study and the methodology chosen. Due to its length, my comment is divided in two entries. I apologize for not answering in Portuguese.

    In the mentioned study (Effectiveness of eucalypt plantations as a surrogate habitat for birds, now in press in Forest Ecology and Management), I did not intend to compare communities of similar ages but of similar degrees of maturity. Growth rate is different for different tree species, and so is the age of what is usually considered a mature community. Eucalypt plantations older than 25 yrs of age can be considered mature whereas a pine plantation of that age would not be considered mature, and a Q. robur forest would be considered as young. The growth rate of dominant trees is low in mature communities (with fast-growing species such as eucalypts reaching this stage earlier). Changes in structure, canopy cover and understory environment tend to stabilize in the mature stage, which leads also to more stability in species composition. Hence, the change in species richness and composition as plantations grow older is high for young plantations but lower at older ages, with the rate of change tending to 0 in mature stages, with no significant increases in richness nor changes in species composition (see for instance Potti 1985, Ardeola 32: 253-277 for Pinus sylvestris). This stability in species richness and composition is the common feature I have looked for in the mature communities compared, despite differences in age. Thus, in my study, the Q. robur forests and pine plantations studied are considered functionally comparable to the mature eucalypt plantations studied, since all are mature communities and, therefore, stable in terms of structure. For this reason, and with all due respect, it is not at all like comparing “alhos com bugalhos”.

    On the other hand, the author of this blog post seems to assume that there is an increase of species with the age of plantations, and that an older plantation is expected to be richer than a younger one. However, this is not necessarily the case, as it has been shown in many studies, with intermediate ages sometimes harboring richer communities, for they can sustain species typical of both young and mature communities, being thus called temporal ecotones, in analogy to spatial ecotones between different habitats.

    In addition, the author mentions some species that can be present in eucalypt plantations but were not detected in my study, apparently intending to discredit the study. This study, as most studies of this kind nowadays, does not aim at providing a complete list of all the species that can be present in the habitats compared. It is based on a sampling procedure, not on complete censuses. Using the same methodology and sampling effort in all habitats allow us to compare them in terms of diversity and species composition. Thus, as it occurs in all studies of this kind, not all species are detected, but remember that this happens not only with eucalypt plantations, but with all habitats, and I am sure you can think of species that can be present in Quercus robur forests, for instance, but were not detected in the study.

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  2. The author also cites a sentence of the paper: “A more intensive management with understory removal, a common practice in plantations controlled by the forestry industry, would negatively affect bird diversity in eucalypt plantations.", and states that I seem to ignore the ecological specificity of some forest species. I do not ignore that, in fact this is explicitly discussed in the paper, and forests specialists and generalists, as well as ubiquitous species are clearly distinguished (see Fig. 3b). The cited sentence is based on the results of this study and of others before this one. The importance of a well developed understory is clearly acknowledged in the scientific literature, as it increases the structural complexity of the habitat and with it the diversity and abundance of birds (among other groups of organisms), which find food and nesting places in this understory. This is especially important in eucalypt plantations, as eucalypt leaves are highly unpalatable for herbivores, so understory plants become an essential part of the food web as primary producers.

    In relation to this, the author of the blog closes this post stating that “Por vezes, não é importante o número de espécies que ocorrem num habitat, mas sim qual é a importância desse habitat para espécies ameaçadas ou relevantes em termos da biodiversidade.”. I fully agree with this sentence, and for this reason I have highlighted, in this and other papers, the importance of considering not only the number of species (species richness) and diversity parameters, but also the differences in species composition between habitats, taking into account species functional traits as well as conservation status. Thus, this study includes analyses of differences in species composition and species traits between habitats. The conservation status of species was considered in the analyses, together with the degree of specialization in forests habitats and other traits related to food, habitat and microhabitat preferences. The results of the study show that eucalypt plantations harbor relatively poor bird communities in terms of species diversity and have also a limited value as a habitat for forest specialists or for species of conservation concern.

    Given the importance of eucalypt plantations for the forestry industry, an important economic sector in our region, finding practical management guidelines aimed at enhancing the value of these plantations for biodiversity becomes an important objective for conservation. For this, we need a good understanding of the mechanisms determining the differences in biodiversity between tree plantations and other habitats. As an ecologist, this is the goal of my studies and I hope that we ecologists and forestry practitioners can work together to progress in this direction.

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  3. Do ponto de vista do espaço ecológico disponível como habitat para a avifauna, o que importa no desenho do estudo é a representatividade dos habitats estudados, a qual duvido que possa ser negada; por isso a conclusão que se tira é que a substituição de pinhais ou carvalhais maduros por eucaliptais reduz objectivamente esse espaço.

    É Ciência. Não tem nada de manipulativo.

    Como complemento, refere-se que a remoção sistemática do estrato arbustivo espontâneo retira ainda mais do já fraco valor ecológico das plantações de eucalipto. Ao contrário do que são as crenças antiquadas da escola de silvicultura dominante, a incorporação sistemática de arbustos autóctones nestas plantações não prejudica a produtividade dos eucaliptais, antes pelo contrário.

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  4. Caro Gato Louco,

    Compreendo a sua argumentação e sua conclusão (substituir carvalhais adultos por plantações de eucalipto reduz a biodiversidade) é obvio e indiscutível.

    Nâo é essa a questão que coloco. A minha questão é que essa redução de biodiversidade não é consequência da escolha da espécie (eucalipto no exemplo dado) mas sim da alteração de estrutura. Se um carvalhal adulto fosse substituído por uma plantação nova de carvalhos, a mesma redução de biodiversidade ocorreria. Certo? Somente quando essa plantação de carvalhos originasse um povoamento adulto (quer dizer, cem anos depois) podia proporcionar níveis de biodiversidade semelhantes ao povoamento adulto cortado. E quem diz carvalhos diz plantações de qualquer outra espécie.

    A questão central é que o artigo, no meu entender, não consegue demonstrar que as diferenças na biodiversidade são consequência da espécie e não da estrutura do povoamento. Para tal, devia ter escolhido povoamentos com estruturas semelhantes e não diferentes, como foi o caso.

    Ignorando a apreciação negativa da escola de silvicultura dominante, gostava que me indicasse o(s) estudo(s) que prova(m) a sua afirmação que a presença de arbustos autóctones não prejudica a produtividade dos eucaliptais.

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