30 de outubro de 2013

Gestão do fogo e do território


Lá estaremos nós (para vizualizar melhor, clique no cartaz).

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22 de outubro de 2013

Alhos com bugalhos

Reflorestação de eucalipto no Ribatejo: habitat preferencial de chasco-ruivo
O número de estudos científicos Ibéricos sobre a ecologia de plantações de eucalipto é notoriamente baixo. A razão desta escassez parece ser mais sentimental que científico: não são muitos os biólogos que escolham um habitat considerado pobre em biodiversidade como objeto de estudo. Não há mal nisso, mas impede um apuramento mais objetivo e isento dessa biodiversidade.

No entanto, de vez em quando surgem publicações, como é o caso desta na revista de renome Forest Ecology and Management, na edição de outubro: Effectiveness of eucalypt plantations as a surrogate habitat for birds. No artigo são comparados vários habitats florestais galegos, com o objetivo de avaliar sua importância para a diversidade avifaunísticas na perspetiva de uma paisagem fragmentada, onde estes habitats se alternam.

Até aqui nada de anormal. As plantações de eucalipto têm de facto diversidades avifaunísticas relativamente baixas quando comparado com habitats naturais; já não será assim com outros habitats com plantações de espécies de produção lenhosa. Falo por experiência própria em estudos como Atlas das Aves Nidificantes, Censo das Aves Comuns e outros em que realizei trabalho de campo, opinião que qualquer observador de aves pode confirmar.

Porém, o que me surpreendeu no artigo foi a escolha dos habitats: plantações de eucalipto (três classes de idade: jovem, idade de corte e envelhecido), carvalhal adulto, pinhal adulto e matos. Se o objetivo é comparar a importância da espécie arbórea na diversidade avifaunística de habitats florestais, porquê introduzir uma variação na comparação, que é a idade, logo a estrutura dos dois habitats considerados naturais? Porquê comparar plantações de eucalipto (ecologicamente sempre jovens) como povoamentos sobremaduros de pinheiro bravo e adultos de carvalho? Porquê não comparar plantações de eucalipto com plantações de pinheiro e carvalho com a mesma estrutura e/ou desenvolvimento?

Como era de esperar, a conclusão do estudo foi que os eucaliptais estudados têm muito menos diversidade avifaunística que pinhais e carvalhais adultos. Mas então, como podemos concluir que essas diferenças são consequência da espécie e não da estrutura da vegetação? Qual seria a conclusão quando se tivesse comparado uma plantação de um eucaliptal com uma plantação de pinheiro ou mesmo um carvalhal com uma estrutura semelhante?

No meu entender, o estudo devia ter comparado habitats de espécies diferentes mas com estruturas semelhantes, uma vez que a estrutura tem uma importância primordial para a biodiversidade em geral, incluindo a diversidade avifaunística. Comparar um carvalhal adulto ou pinhal sobre-maduro (idade > 60 anos) com uma plantação de eucalipto de 10 ou 20 anos é comparar alhos com bugalhos.

No entanto, o que interessa sobretudo na ecologia das plantações de eucalipto, não é o que as plantações não têm, mas sim o que têm. Do pouco que se sabe sobre a ecologia dos eucaliptais (por ser muito mal estudada), eles constituem habitats de nidificação para várias espécies de aves classificadas como ameaçadas, como por exemplo aves de rapina como águia-real, águia de Bonelli, açor, águia-calçada, mas também as duas espécies de noitibó, chasco-ruivo, alcaravão etc.

O que interessa estudar é a importância da dinâmica dos eucaliptais, com a sua elevada frequência de cortes, oferecendo às diferentes espécies diferentes estados de desenvolvimento do habitat. Uma espécie que depende de um certo estado de desenvolvimento, encontrará sempre algures esse estado num espaço geográfico relativamente reduzido. Por exemplo, essa dinâmica cria uma elevada extensão de ecótonos, nomeadamente em áreas de minifúndio, zonas de elevada importância para muitas espécies.

O que interessa também conhecer é qual o papel das plantações de eucalipto para espécies ameaçadas:
  • chasco-ruivo (Oenanthe hispanica) nidifica regularmente em plantações recentes (até 2 anos de idade) de eucalipto (ver foto acima). Em regiões onde as reflorestações de eucalipto são abundantes, este habitat está permanentemente disponível, embora em parcelas temporalmente distribuídas. Esta dinâmica e sua importância para a espécie em causa nunca foi estudada (que eu saiba).
  • As duas espécies de noitibó (noitibó de Europa Caprimulgus europaeus e noitibó-de-nuca-vermelha Caprimulgus ruficollis), nidificam no solo em formações florestais. A sua utilização de plantações de eucalipto é conhecida, e para tal recorrem sobretudo a eucaliptais com solo nu ou vegetação esparsa, resultado dos tratamentos silvícolas de controlo de matos, evitando subbosque densos e altos.
  • Em áreas altamente humanizadas, a ave-de-rapina açor (Accipiter gentilis), espécie florestal por excelência, recorre frequentemente a eucaliptais de produção para nidificar,como já foi relatado neste e neste post). E este ano, até um casal de águia-real (Aquila chryseatus) ocupou uma plataforma colocada num eucaliptal no Parque Natural do Tejo Internacional, como se pode ler aqui.

O estudo parece querer concluir o óbvio: "The poor avifauna in eucalypt plantations suggests their limited value as a habitat for birds of either native forests or shrublands, in contrast to pine plantations, which showed their potential to favor connectivity among native forest patches.", no entanto não comparou formações comparáveis, invalidando essas mesmas conclusões. Também não foi capaz de identificar espécies ameaçadas relativamente abundantes na Galiza que utilizam eucaliptais para nidificar (açor, noitibó de Europa), negando aos eucaliptais um valor relevante em termos de avifauna.
Outra conclusão, "A more intensive management with understory removal, a common practice in plantations controlled by the forestry industry, would negatively affect bird diversity in eucalypt plantations.)" parece ignorar a especificidade ecológica de algumas espécies florestais. A manutenção de um subbosque denso e alto beneficiaria sobretudo espécies generalistas, em detrimento das espécies referidas acima.

Por vezes, não é importante o número de espécies que ocorrem num habitat, mas sim qual é a importância desse habitat para espécies ameaçadas ou relevantes em termos da biodiversidade.

9 de outubro de 2013

Caranguejo-peludo-chinês na Ribeira da Foz

Caranguejo-peludo-chinês (imagem obtida aqui)
Pois foi uma surpresa, quando numa visita recente à Ribeira da Foz encontrámos um exemplar do caranguejo-peludo-chinês (Eriocheir sinensis). Tratou-se de uma fêmea e já estava morta quando foi encontrada.

A espécie em causa, promptamente identificada pelos nossos colegas do ICNF com base em fotografias enviadas, é exótica, como indica o nome, e ocorre de forma esporádica na bacia do Tejo. Conforme DL 565/99, é classificada como invasora na bacia do Tejo.

De acordo com esta página da Wikipédia, o caranguejo-peludo-chinês passa a maior parte da sua vida em água doce, mas deve regressar ao mar para procriar. Durante o quarto ou quinto ano de vida, no final do verão, migra rio abaixo e atinge maturidade sexual nas zonas tidais dos estuários. Depois de procriar, as fêmeas continuam a migrar em direção do mar, onde invernam em águas mais profundas. Elas regressam às águas salobras na primavera seguinte para a postura dos ovos. Depois do seu desenvolvimento como larvas, os caranguejos juvenis migram gradualmente rio acima até à água doce, completando desta forma o ciclo de vida.

Assim sendo, estão identificadas duas espécies de invertabrados invasoras na Ribeira da Foz, com o já conhecido lagostim-vermelho-da-louisiana (Procarambus clarkii).

Resta-me só agradecer aos colegas do ICNF a identificação da espécie.