30 de março de 2012

Ribeira de Alferreira

As ribeiras a sul do tejo sempre nos reservaram algumas surpresas, quando as visitamos.
Para não fugir à regra fomos visitar uma das mais relevantes, em termos de área de influência dos povoamentos sob gestão da Altri Florestal - A ribeira de Alferreira, nos concelhos de Nisa e Gavião.


Esta ribeira surpreende qualquer visitante, numa primeira impressão, devido ao relativo isolamento às populações mais próximas e consequentemente das fontes de poluição fluvial.


Desta vez, a nossa visita focou-se na verificação do potencial para a presença de valores de fauna piscicola. No entanto quando a percorremos de montante para jusante saltou à vista a diversidade e excelente estado de conservação da galeria rípicola (amieiros, freixos, pilriteiros) bem como da vegetação presente nas encostas mais escarpadas (azinhal).


Voltando aos peixes, foi também muito impressionante verificar a diversidade e quantidade presente, bem como as várias classes de idade de bogas, escalos e góbios.


O dia não deu para mais, mas os 11 km da Ribeira de Alferreira sob nossa gestão merecerão novas visitas e avaliações dos valores naturais presentes.

       

24 de março de 2012

Notas de Vale Mouro IV

Foto obtida aqui
 Hoje fomos informados, por um experiente observador de aves, da presença de um colhereiro numa charca em Vale Mouro.

Esta espécie, que ocorre de forma regular embora esporádica no Ribatejo, tem no Paul de Boquilobo o local de reprodução mais importante na região. As aves deslocam-se frequentemente dezenas de quilómetros para se alimentar em charcas e zonas alagadas, o que terá sido o caso aqui.

O que é curioso é o facto de ter sido numa charca, de reduzida dimensão, em espaço florestal, pouco habitual para a espécie. Interessante se torna ao saber que a charca foi criada no âmbito do projeto de reflorestação da propriedade, sendo anteriormente uma área onde estava instalado um eucaliptal. Este exemplo mostra que pequenas intervenções no ordenamento podem constituir importantes contributos para a biodiversidade, mesmo inesperados como este caso (colhereiro seria a última das espécies a esperar no local, sendo a charca pensada sobretudo como local de reprodução de anfíbios).

O registo já foi introduzido no Biodiversity4All.

21 de março de 2012

Narcisos

A primavera anuncia-se nas florestas da Altri Florestal.
Numa pesquisa direccionada à flora no SIC de Carregal do Sal, a equipa da Mãe D'Água encontrou uma pequena pérola da nossa flora nacional (endemismo português), o Narcissus scaberulus. Esta planta está geralmente associada a solos pobres e rochosos de origem granítica. Pode ocorrer também em prados e em clareiras de giestais.



Na propriedade em questão a população desta espécie era bastante relevante. Este tipo de "descobertas" relevam a importância da monitorização dos valores naturais como uma ferramenta útil na  gestão florestal. Neste caso em particular a recomendação de gestão é não perturbar estas clareiras, que estão associadas aos afloramentos graníticos, zonas que já tinham sido excluídas da florestação.

Para mais detalhes (fotográficos) sobre esta espécie recomendo o site Flora-On da Sociedade Portuguesa de Botânica.

Um bom dia da árvore e das florestas para todos.

6 de março de 2012

Artigo sobre o controlo biológico do gonipterus

A conceituada revista Forest Ecology and Management aceitou a publicação do artigo Efficiency of biological control of Gonipterus platensis (Coleoptera: Curculionidae) by Anaphes nitens (Hymenoptera: Mymaridae) in cold areas of the Iberian Peninsula: Implications for defoliation and wood production in Eucalyptus globulus, do qual a nossa colega Ana Raquel Reis é autora principal. Para além de outros colaboradores da Altri Florestal, este artigo contou com co-autores do Instituto Superior de Agronomia, sendo mais uma prova da qualidade da mútua cooperação em investigação que tem existido entre a Altri Florestal e este instituto.

Foto: Ana Raquel Reis

Segue um resumo traduzido do artigo:

A gestão sustentável dos povoamentos florestais e as estratégias de controlo baseadas no custo-benefício dependem de estimativas prévias do nível económico de danos causados pelas pragas. O gorgulho do eucalipto, Gonipterus platensis (Marelli), uma praga-chave das plantações de eucalipto em todo o mundo, é controlado principalmente através do controlo biológico clássico, usando o mimarídeo Anaphes nitens (Girault). No entanto, em diversas regiões temperadas, o parasitóide não reduz eficazmente as populações do gorgulho a níveis economicamente viáveis. Este estudo tem como objetivos (i) relacionar a eficiência do parasitóide com variáveis climáticas, (ii) relacionar o nível de danos causados pelo gorgulho com a taxa de parasitismo por A. nitens, (iii) estimar o impacte dos danos causados pelo gorgulho do eucalipto na produção de madeira. Em 2007 monitorizou-se a densidade da praga, os danos causados pela desfolha na copa das árvores e as taxas de parasitismo por A. nitens, em 34 povoamentos da Altri Florestal. A altitude, a temperatura e a precipitação foram obtidas através da base de dados Worldclim. Usando dados de inventário históricos, a produção de madeira foi projetada para uma idade de 10 anos, antes da chegada da praga, e comparada com os dados atuais para os mesmos povoamentos.

Verificou-se que a taxa de parasitismo por A. nitens é um fator que explica a densidade do gorgulho e a desfolha da árvore, r2=0,37 e 0,41 (p <0,001), respetivamente. Foi obtida uma correlação significativa entre as taxas de parasitismo e a temperatura máxima dos meses de inverno (MaxTw), r2=0,55 e a altitude r2=0,59 (p <0,001). Não foi encontrada relação significativa entre as taxas de parasitismo e outras variáveis climáticas, como temperaturas dos meses mais quentes e precipitação. O máximo de eficiência do parasitóide surge para MaxTw de 10-11 ºC. A taxa de parasitismo média foi baixa, de 10,1% (± 4,9), para MaxTw abaixo de 10 ºC, aumentando para 70,9% (± 3,8) acima de 11,5 ºC. A redução da eficiência de A. nitens poderá ser explicada pelas diferenças de nichos climáticos da praga e do parasitóide. A temperatura mínima, em particular, é determinante neste sistema hospedeiro-parasitóide. De facto, em zonas mais frias MaxTw<10ºC, observou-se uma desfolha de 74,1%. Observaram-se diminuições médias de 51% de volume de madeira (projetado para os 10 anos de idade) nas áreas afetadas no período 2004-2006, em comparação com as mesmas áreas no período anterior de 1995-1998, antes do aparecimento do gorgulho do eucalipto em Portugal. A perda de volume de madeira aumentou exponencialmente atingindo 43% e 86%, para desfolhas de 75% e 100%, respectivamente. Assim, considerando o aumento dos prejuízos económicos calculados para estas regiões devido à desfolha causada pelo gorgulho do eucalipto, a procura de estratégias de controlo alternativas é uma necessidade premente.

Infelizmente, devido a direitos editoriais, não podemos disponibilizar aqui o artigo na sua íntegra. O mesmo poderá ser consultado no volume 270 da Forest Ecology and Management ou adquirido na edição eletrónica da mesma revista, através do seguinte link.

5 de março de 2012

Sarcoscypha sp. na Ribeira da Foz


Numa visita em fevereiro à Ribeira da Foz, encontrámos uma espécie de cogumelo do género Sarcoscypha, conhecidos como taça-escarlate. São espécies de ambientes florestais húmidos e aparecem sobretudo no inverno.


Foi depois de ter colocado as fotografias no forum Cogumelos de Portugal que foi sugerido por especialistas que mais provavelmente se trata da espécie Sarcoscypha austriaca, uma espécie relativamente rara que surge sobretudo associada a amiais, como é o caso de Ribeira da Foz. No entanto, somente análise microscópica dos espóros pode determinar com rigor a espécie. 

O registo foi já colocado no Biodiversity4All para dar a conhecer a quem se interessar por ele, tal como a sua localização.

1 de março de 2012

Serviços de ecossistema


Imagem obtida aqui
Os serviços de ecossistema estão a ganhar um lugar de destaque na discussão em torno da sustentabilidade do uso dos recursos naturais. É reconhecido que muitos sistemas produtivos prestam serviços ambientais que não têm um valor económico concretizável e que são disponibilizadas à sociedade de forma gratuita. Esta questão é particularmente pertinente em sistemas de produção florestais.

Esta semana, a Altri Florestal foi informada da existência de um ninho de açor (Accipiter gentilis), rapina de média porte associada sobretudo às florestas do Centro e Norte de Portugal. O açor é uma espécie ameaçada classificada como "Vulneravel" no Livro Vermelho dos Vertbrados de Portugal.

A informação relativa ao ninho é fruto do trabalho de prospeção realizada pelo Jorge Vicente, com quem a Altri Florestal tem vindo a colaborar recentemente.

Ao receber esta informação, foi decidido analisar a necessidade de criar uma zona de proteção em redor ao ninho, de forma a salvaguardar o local o processo de reprodução do casal em causa.

Acontece que estamos perante uma propriedade arrendada, cujo corte está previsto para 2013 ou 2014. O proprietário é compensado pelo arrendamento através de uma percentagem da produção realizada na propriedade.

Neste momento, foram tomadas duas decisões:

1.  a exploração da propriedade deve ocorrer fora da época de nidificação e tendo em conta as características da zona, será então em setembro de 2013 ou 2014.
2.  na exploração, deverá ser deixada uma zona de proteção ao ninho, de forma a assegurar a sua não-perturbação

Convém agora estabelecer qual a dimensão da zona de proteção, na perspetiva do seu impacte económico.

Por exemplo, se deixarmos o povoamento em pé num raio de 50 metros em volta do ninho, a área abrangida pela zona de proteção é 7854 m2. Esta área terá na altura do corte um volume estimado em pé de 160*0,7854=125 m3. O valor desta madeira em pé é de 30€*125m3=3750€.

Na tabela em baixo, apresento o resultado desta conta para 4 raios diferentes, para termos uma ideia do seu impacto financeiro:

Tendo como objetivo proteger eficazmente o ninho com menor custo possível, coloca-se a pergunta qual a dimensão da zona de proteção a utilizar. Dever-se-á procurar o compromisso possível entre a proteção e a limitação do prejuízo.

O Jorge Vicente teve a amabilidade de analisar a questão e avançou com a seguinte argumentação:

"No Oeste os açores apresentam densidades muito relevantes e estão distribuídos por uma tipologia de habitats agro-florestais incrivelmente variada, ocupando territórios desde a costa Oeste até às planícies ribatejanas da bacia do Tejo, passando por ambientes serranos (Aire, Candeeiros e Montejunto) onde nidificam até aos 500m de altitude. O distanciamento mínimo entre ninhos de casais contíguos corresponde a pouco mais de 2kms, existindo a possibilidade de alguns casais nidificarem a apenas 1km de distância entre si. Os habitats de nidificação chegam a resumir-se a meros bosquetes com 5 a 10 árvores, muitas vezes com os ninhos situados na periferia do povoamento.
Estas densidades são também proporcionais, relativamente a outras espécies florestais, particularmente Buteo buteo e Accipiter nisus, e em alguns locais Aquila pennata. Conheço até uma situação, quase anedótica, de nidificação de A. pennata a apenas 100m de A. gentilis, com sucesso reprodutor dos 2 casais, e sem aparente agressividade interespecífica.
Resumindo: as comunidades de rapinas florestais do Oeste são bastante densas e adaptáveis, prosperando nos territórios mais humanizados do nosso pais. E ainda pouco ou nada está feito no que se refere ao estudo destas interessantes comunidades.

Tendo em consideração estes dados preliminares, preocupa-me um pouco o resultado da partilha da localização de ninhos de açor (e/ou de outras espécies) em terrenos sob a gestão da Altri. Isto é, existe uma possibilidade de vir a facultar um nº elevado de localizações, a partir do momento em que comece a prospectar sistematicamente estas propriedades. Se a Altri optar pela implementação de buffers de protecção, com um mínimo de raio, na ordem dos 20m, parece-me óbvio que existirão prejuízos não desprezíveis no médio prazo, tornando pouco sustentáveis estas acções e "politicamente difíceis" de justificar.
Penso que poderemos actuar de acordo com a grande capacidade de adaptação destas aves e reduzir um pouco o nível de protecção em redor dos ninhos, ajustando estes buffers à "realidade regional" do Oeste. Na minha opinião, ainda mais relevante do que a delimitação destes buffers é o ajustamento assíncrono das actividades florestais com o período reprodutor das aves. Muito mais impactante que o corte de uma árvore de nidificação, é o seu corte quando existem ovos ou crias nidícolas.
Um faixa de protecção de 10 a 15m de raio máximo, em redor de ninhos, será mais realista para espécies como A. gentilis, A. pennata e B. buteo.
Rapidamente um bosquete, decorrente de uma intervenção destas características, ficará rodeado de mata em crescimento. No prazo de 3 anos ficará óptimo, sendo que, possivelmente, não será utilizado no ano seguinte ao corte, mas certamente será reocupado. Logo existirá um pequeno impacto temporário, especialmente na medida em que estes bosquetes poderão não ser cortados tão cedo. Além disto existe muita promiscuidade na utilização de ninhos, entre rapinas florestais, pelo que mais importante que garantir a produtividade de um casal específico numa época de nidificação, é garantir a existência futura de um bom ninho num pequeno bosquete de grandes árvores. Hoje um casal de açores e, quiçá, no futuro um casal de águias de Bonelli. :)

Insisto que só assumo estas afirmações no contexto muito particular do Oeste, sendo que é fundamental efectuar, a curto prazo, a quantificação das características do habitat de nidificação dos casais já recenseados, de forma a podermos extrapolar com segurança os valores médios dos buffers em áreas de eucaliptal de produção. Trata-se de fundamentar as suposições expressas acima.
"


Este exemplo mostra bem que os sistemas florestais não só fornecem gratuitamente serviços ambientais relevantes, neste caso locais de procriação para uma espécie ameaçada, mas também que estes serviços se podem traduzir em prejuizo económico direto para o produtor florestal, devido às restrições operacionais, assumidas voluntariamente no caso da Altri Florestal, em consequência destes mesmos serviços.

Neste perspetiva, o desenvolvimento de um mercado que reconhece o valor dos serviços de ecossistemas prestados poderá criar bases para uma valorização destes sistemas florestais, criando condições não só para a efetiva proteção dos valores naturais como a sua promoção ativa.